Ricardo ([info]cadaversquisito) wrote,

adeuses

Oh adeuses a esta e àquela terra,
a cada boca e a cada tristeza,
à lua orgulhosa, às semanas
que enrolaram os dias e desapareceram,
adeus a esta e àquela voz tingida
de amaranto, e adeus
à cama e ao prato do costume,
ao lugar vesperal dos adeuses,
à cadeira casada com o mesmo crepúscuilo,
ao caminho que os meus sapatos fizeram.

Difundi-me, não há dúvida,
troquei de existências,
mudei de pele, de lâmpada, de ódios,
tive que o fazer
não por lei, não por capricho,
mas, sim por escravidão,
acorrentou-me cada novo caminho,
ganhei rosto à terra, a toda a terra.

E, de repente disse adeus, recém-chegado,
com a ternura ainda recém-partida
como se o pão abrisse e de repente
fugisse da mesa toda a gente.
Afastei-me assim de todos os idiomas
repeti os adeuses como uma porta velha,
mudei de cinema, de razão, de sepultura,
afastei-me duns sítios para outros,
e assim continuei sendo, meio
desmantelado na alegria,
nupcial na tristeza,
sem jamais saber como nem quando
se está pronto para voltar, não voltando.

Sabe-se que o que regressa não partiu,
e assim na vida andei e desandei
mudando de roupa e de planeta,
habituando-me à companhia,
à multidão desterrada,
à grande solidão dos sinos

Pablo Neruda // Plenos Poderes

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  • 4 comments

Anonymous

October 17 2005, 14:10:38 UTC 6 years ago

Nos adeuses deixamos sempre um bocadinho de nós, mas trazemos um bocadinho de alguém e dos lugares onde estivemos, alargando um pouco mais o nosso mapa imaginário e íntimo. Gosto muito do "Neruda" que escolheste, e com as fotos deste blogue, sinto um espírito viajante e algo itenerante que me agrada, onde me revejo também. Beijos Raq

[info]cadaversquisito

October 18 2005, 00:15:57 UTC 6 years ago

...não trazemos um bocadinho desses sítios, trazemos um bocadão. E não sei até que ponto deixamos mesmo um pouco de nós nesses sítios, a essas pessoas. Locais a que um dia mais tarde temos que voltar para recuperar a matéria deixada : )

Anonymous

October 19 2005, 09:06:36 UTC 6 years ago

Como diria Neruda, sente-se que este teu blogue é feito dos lugares por onde passas e das experiências que aí vives, "com a ternura ainda recém-partida":)

Um bocadinho para mim pode ser um bocadão para ti, mas acabamos por dizer a mesmíssima coisa. Basta ser algo que sinta ter deixado ao lugar, às pessoas, para que o diminuitivo seja apenas uma forma carinhosa de o sentir. E acho que deixamos sempre algo de nós nalgum cantinho, e de alguma forma.
E quanto ao regresso a esses lugares, socorro-me de novo de Neruda, juntando dois versos diferentes (ele exprime em poesia o sentimento de tantos rostos:
"E, de repente disse adeus, recém-chegado(...)Sabe-se que o que regressa não partiu(...)" - E só esse vai sentir recuperar a matéria deixada. (ou não?)

[info]cadaversquisito

October 19 2005, 10:21:18 UTC 6 years ago

É uma interpretação sobre a forma de acolheres as coisas que estão à tua volta ; )
Acho que o Neruda escreveu bem a minha.
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