Oh adeuses a esta e àquela terra,
a cada boca e a cada tristeza,
à lua orgulhosa, às semanas
que enrolaram os dias e desapareceram,
adeus a esta e àquela voz tingida
de amaranto, e adeus
à cama e ao prato do costume,
ao lugar vesperal dos adeuses,
à cadeira casada com o mesmo crepúscuilo,
ao caminho que os meus sapatos fizeram.
Difundi-me, não há dúvida,
troquei de existências,
mudei de pele, de lâmpada, de ódios,
tive que o fazer
não por lei, não por capricho,
mas, sim por escravidão,
acorrentou-me cada novo caminho,
ganhei rosto à terra, a toda a terra.
E, de repente disse adeus, recém-chegado,
com a ternura ainda recém-partida
como se o pão abrisse e de repente
fugisse da mesa toda a gente.
Afastei-me assim de todos os idiomas
repeti os adeuses como uma porta velha,
mudei de cinema, de razão, de sepultura,
afastei-me duns sítios para outros,
e assim continuei sendo, meio
desmantelado na alegria,
nupcial na tristeza,
sem jamais saber como nem quando
se está pronto para voltar, não voltando.
Sabe-se que o que regressa não partiu,
e assim na vida andei e desandei
mudando de roupa e de planeta,
habituando-me à companhia,
à multidão desterrada,
à grande solidão dos sinos
Pablo Neruda // Plenos Poderes
Anonymous
October 17 2005, 14:10:38 UTC 6 years ago
October 18 2005, 00:15:57 UTC 6 years ago
Anonymous
October 19 2005, 09:06:36 UTC 6 years ago
Um bocadinho para mim pode ser um bocadão para ti, mas acabamos por dizer a mesmíssima coisa. Basta ser algo que sinta ter deixado ao lugar, às pessoas, para que o diminuitivo seja apenas uma forma carinhosa de o sentir. E acho que deixamos sempre algo de nós nalgum cantinho, e de alguma forma.
E quanto ao regresso a esses lugares, socorro-me de novo de Neruda, juntando dois versos diferentes (ele exprime em poesia o sentimento de tantos rostos:
"E, de repente disse adeus, recém-chegado(...)Sabe-se que o que regressa não partiu(...)" - E só esse vai sentir recuperar a matéria deixada. (ou não?)
October 19 2005, 10:21:18 UTC 6 years ago
Acho que o Neruda escreveu bem a minha.